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Por Juliana Gomes*

«Por que não interessa aonde se chega?

Porque o caminho é infinito.

A viagem nunca termina.

Não importa se estás perto do início ou perto do fim

– à tua frente, uma viagem nunca acaba, (…)

não importa tanto o caminho,

mas o momento em que se entra nele (…)»

ANDREI TARKOVSKY

Os millennials podiam ser uma geração que inicia viagens onde se adia o tempo de (quase) toda uma vida, mas a vontade não mente e querer vencer é sempre uma premissa. Seja lá o que isto quiser dizer. Apesar de a vida lhes trocar as voltas, e de (quase) adiarem os projetos, porque as circunstâncias o exigem e o dinheiro é escasso, nada menos fazer do que aquilo que os inspira e os deixa «ser» e «existir» em plenitude. É uma geração que se encontra em si mesma, no seu coração, mesmo que ele os leve por um caminho mais difícil e, por vezes, frustrante. Que desperdício seria não sentirem nada, para não sentirem qualquer coisa que fosse. É uma geração que não se limita, que não vê fronteiras, que sabe que voa mesmo sem asas.

Os millennials nasceram numa época de grandes avanços tecnológicos, de facilidade material e liberdade mental e, ao mesmo tempo, num tempo tão volátil quanto as suas vontades e ambições. É uma geração sem medo de espelhar a sua posição, e mesmo que nela permaneçam por pouco tempo, cumprir o ser é respeitar e ter uma resposta ao que estes millennials são na sua íntegra; porque tudo está em constante movimento e, para eles, desfrutar do caminho é mais importante do que eleger um destino final. A fragilidade de uma procura, que pode não ser prometida na sua forma, é dar um salto da montanha. Mas. Incitados a correr atrás dos seus sonhos, a serem fiéis a si mesmos, protegidos e sobrevalorizados, são jovens que encontram fortaleza em descobrir as coisas de forma peculiar e no tempo recorde que lhes assombra a própria sombra; porque nada parece difícil de encontrar, tudo aparenta ser acessível. São impacientes, a internet é um dado adquirido, a informação está ao alcance de um clique e se não é imediato, incomoda, como os anúncios e comerciais que os atrapalham na hora de ver vídeos na internetboring!

Administram um sentido empreendedor muito grande e não é de admirar que sejam tão incapazes de esperar por resultados, dada a velocidade com que se conectam com o mundo. Querem muito e muita coisa e com pressa de sentirem e não perderem tempo. O tempo voa, não é? Quase que saídos de uma caixa da Pandora, uma «geração inspiração», os millenialls foram educados a sugar o mundo e habituados a que o alcance das coisas não seja um obstáculo. Por isso, comportam inquietude, irreverência, diferença, e deixar a sua pisada no mundo é um propósito. São de mudar mentalidades, de criar um mundo melhor e mais sustentável. Existe neles uma ambição desmedida que lhes agita o corpo, a alma e o coração. E existe também talento. Reinventam-se todos os dias. Arriscam, insurgem-se contra o que está mal. São exigentes e querem ver reconhecidas as suas qualidades. Não têm problemas em trabalhar com outras gerações, desde que haja igualdade e respeito. Mas são jovens de ideias tão distintas que isso gera discussão e frustração. Não têm medo de transpor limites em busca de emprego qualificado. É uma geração que se assume grande demais para ter de ficar acorrentada ao espaço geográfico em que nasceu e, inconformados, muitas vezes, com o mercado profissional, com a falta de oportunidades a curto prazo, voar de um lugar (aparentemente) seguro para o temido tornou-se o normal. Tudo é muito mais valioso do que ter casa própria, do que fixar raízes e assentar, pois, a experiência é casar com outros mundos. São pela diferença, pela inovação, pelo movimento. Como disse Olga Tokarczuc, «tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está em repouso, (…) a mudança é mais nobre do que a estabilidade, (…) tudo o que estagna acabará por sofrer decomposição, degeneração e transformar-se-á em pó, enquanto aquilo que está em movimento consegue durar eternamente.»

Em sinopse, os millennials são uma geração por norma insatisfeita (não se deixam intimidar) e de uma pretensão excessiva em querer fazer acontecer. São jovens do desapego e facilmente conseguem mudar de direção, adaptando-se à realidade que os faz sentir um bichinho desconfortável na barriga. Sem preconceitos. Os millennials são do presente e gostam de viver o melhor dele. O imediato é elementar, e aquela ilusão de que o futuro pode ser controlado está a quilómetros de distância. Parecem viver evidenciados nos seus umbigos e na necessidade de provar a sua identidade. Mas, e aí reside a beleza de qualquer «ser» ou «existir», têm um propósito essencial: apesar de serem uma geração que nada em tecnologia e na ideia de si próprio, o cativante deste grupo é que priorizam a experiência em detrimento dos bens materiais, priorizam a diferença como riqueza, são multifacetados, têm sede de olhar para todo o lado e fazer melhor.

* Juliana Gomes é pedagoga, pós-graduada em Neuroeducação, mestre em Psicologia Familiar, escritora e cantora "por amor". Tem 30 anos.

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