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ELLIOT SCHMELTZ

Chamonix-Mont-Blanc, França, 1987

De boina torta e português quase direito, Elliot prende a bicicleta a um poste, pede um abatanado e conta-nos as histórias que nem nós sabíamos sobre a cidade branca, a mesma que inspirou Alain Tanner a realizar um filme com o mesmo nome, em 1983. Veio a pedalar desde os Sapadores até ao Intendente mas, a descer, todos os santos o ajudaram. É que a cidade não é plana, mas é “inspiradora” e deu-lhe a energia que precisava para que, há cinco anos, fizesse dela uma casa e a pedalasse talvez melhor do que nós.

“Vou lá passar uma semana, vou ver se vou gostar de aprender português”, pensou ele, em 2013. A cidade já se lhe passava pela cabeça há uns anos, e a ideia acentuou-se quando percebeu, depois de um mestrado em Finanças e de um emprego em Genebra, que a vida não tinha de ser levada de gravata ao pescoço. “Quando estive em Lisboa nessa semana, adorei! Estava a chover imenso, o tempo estava terrível, mas achei a cidade com tanta energia que pensei ‘vou voltar, e vou voltar de bicicleta’! Parti de Bilbau e, dez dias depois, cheguei aqui nos Restauradores! Pedi a uma coreana para me tirar uma fotografia em cima da bicicleta e foi assim que tudo começou”, admite, quase tão feliz como nesse dia.

O primeiro amor a sério foi a Bica, onde “agarrou todos os moradores pelos braços” para lhes dizer que era ali mesmo que queria viver. Só depois de conseguir é que foi aprender português, ao ouvir falar do programa gratuito Português para Todos, do Alto Comissariado para as Migrações. “Tinha pessoas de todo o lado na minha turma, e eu era o único que estava em Portugal há 15 dias. Lia muito no metro a caminho das aulas, gostava imenso da professora Ana (de quem imita, em bom português zangado, um estridente ‘não quero barulho!’) e fiquei com um bom nível ao fim de seis meses”.

Com casa em Lisboa e já sem dicionário no bolso, passou por alguns empregos em bares e hostels durante os dois anos que se seguiram, até perceber que era como guia turístico que se descobria a si próprio através da cidade. “Ganhava algum dinheiro a fazer tours para um hostel, mas rapidamente percebi que não sabia nada sobre Lisboa. Chegava aos lugares e não tinha nada para dizer. Então comecei a fazer trajectos, a anotar tudo por onde passava, a estudar as estátuas e a descobrir pessoas. Fiz o meu próprio website, que no início tinha três visitas por mês. Agora tem oito, nove, dez mil. Quis quebrar a dependência que tinha em relação aos hostels e fazer a minha própria cena, criar a minha própria empresa. Sinto que vim cá para aprender sobre mim e fazer coisas que nunca fiz”.

Créditos: Diana Tinoco
créditos: Diana Tinoco

Foi assim que nasceu Mon Lisbonne, a tribo de guias piratas que dispensa as gravatas e usa e abusa dos suspensórios, das boinas, dos óculos e do que bem quiserem, desde que marquem a calçada portuguesa e a memória dos turistas franceses que nos visitam. “Não temos a formação oficial de guia turístico, mas não queremos. Nós não mostramos só os monumentos históricos, mostramos monumentos vivos. Estamos aqui no Intendente e podemos falar do Bordallo Pinheiro ou do Pina Manique, mas também podemos falar do Tiago, o ceramista, e da Maria Eugénia, a vendedora da Viúva Lamego que todos os dias abre as portas da loja a quem quiser entrar”. O marketing é uma coisa, o acto é outra, e as pessoas nunca sabem ao que vêm. “Podemos dizer que somos isto ou aquilo, mas nunca ninguém está à espera que seja uma tour tão diferente. Dei liberdade aos meus guias para decidir que percursos querem fazer e como. No início até pensei ‘quero que todos usem suspensórios e boina!’. Mas caramba, depois pensei, ‘porquê?’. Cada um tem o seu estilo, o bairro que gosta mais de mostrar, as palavras que gosta mais de usar. Todos somos um pouco personagens, e todos actuamos como somos”.

Créditos: Diana Tinoco
créditos: Diana Tinoco

A forma como sempre fez o seu trabalho e se relacionou com as pessoas ajudou a que, desde o início, tenha sido bem recebido. Lisboa são “várias aldeias juntas”, um manto de retalhos muito diferentes entre si desde os Sapadores, onde agora vive, até ao Chiado, onde marca o seu ponto de encontro para as tours. Mas, tal como nós o sentimos, também ele sente que a cidade está a mudar. “Não paro de ler coisas sobre pessoas que fazem airbnb e fico muito triste. Claro que pode existir, mas tem de haver legislação. Com turistas a mais, a cidade é insípida. Eu, que faço tours, levo os turistas à Madragoa e mostro-lhes o quê, se não viver lá ninguém? E na Estrela? E em Alfama? Eu percebo que, com tanta gente a vir, é complicado dar. Um português pode dar uma ajuda a um turista por dia, mas dez? Uma foto por dia sim, 20 já é demais. Não é?”

Por agora, talvez precise de uma grande pausa em cima da bicicleta, de uma viagem pelo sul de Espanha para descansar e voltar a ter a energia que Lisboa lhe dava antes, quando cá chegou e até há bem pouco tempo. “Não pretendo aumentar a empresa, mas a paixão que eu dou às pessoas é precisa. Se não a sentir mais, como faço o meu trabalho?”. Onde quer que vá, estamos cá para lhe tirar o chapéu quando voltar, por toda essa paixão que dedica a uma cidade quase sua. Ou a boina.

Créditos: Diana Tinoco
créditos: Diana Tinoco