MARLENE ZEHNTER

Bochum, Alemanha, 1989

No cimo de umas escadas mais discretas do que o nome quer fazer parecer, o Impact Hub desdobra-se em várias línguas e cores neste primeiro andar de um dos edifícios do Village Underground, em Lisboa. Lá dentro, entre muito trabalho e pessoas de todo o mundo para gerir, Marlene recebe-nos com o maior sorriso que esta câmara já fotografou – e talvez por isso, mas só talvez, seja a happiness manager desta comunidade. Happiness quê?

“Viajei tanto nos últimos dois ou três anos”, suspira, e a vida inteira estampada neste rosto de quem já viaja sem ter de sair do lugar. “Vivi um ano em Bali, estive em Singapura, no Vietname e na Tailândia, vivi dois meses em Londres, fiz uma viagem de bicicleta de França até Portugal, vivi três meses em Barcelona, voltei à Tailândia, regressei à minha casa na Alemanha, vim conhecer Lisboa, voltei à Tailândia outra vez, ainda dei outro salto à Alemanha e agora estou aqui!”, conta, numa frase longa e sem pausas que lhe permitam respirar. Mas é assim a vida desta alemã, e essa pausa, por escolha própria, começou aqui e agora.

“Depois destes anos, a minha ideia era viver mais perto da minha família, que está na Alemanha. No entanto, como não me sinto propriamente bem lá – é um país muito frio, as pessoas têm uma forma de pensar muito rígida... – sabia que, acima de tudo, queria viver num país com sol”. Há este e outros motivos racionais, como a vontade de aprender uma língua nova ou o facto de já ter cá pessoas próximas quando ponderou viver aqui. Mas depois há o irracional, o que lhe mexe com tudo lá dentro, o que a faz realmente vir e ficar. “Quando fiz aquela viagem de bicicleta desde França até ao Porto, fiquei maravilhada com tudo desde que passei a fronteira. E eu já tinha visto arrozais incríveis na Ásia, mas aqueles quilómetros todos de vinhas...! Nunca, nunca vi nada comparado com aquilo. Parte de mim soube que queria vir e descobrir mais sobre Portugal”.

Trabalhar aqui foi fácil – e seria sempre, em qualquer parte do mundo, desde que se juntou à comunidade digital nomads. Há um ano, quando ainda vivia em Bali, percebeu que havia demasiadas pessoas com dificuldade em criar o seu próprio negócio, atulhados em ideias diferentes mas sem prática nem inspiração para as concretizar. E foi aí que percebeu que as podia ajudar – quer em Bali, quer em qualquer parte do mundo. “É muito mais do que um diz-me o que queres e eu faço. Não. Eu tenho de conhecer a pessoa a fundo – e é preciso que ela se conheça a si própria – para que, juntas, possamos criar uma estratégia global. Tenho de a ajudar a perceber qual é a visão que têm do mundo, e levar isso para o trabalho que fazem”.

Foi assim que surgiu The Mint Minds, e foi com esse projecto que chegou ao Impact Hub. “Conheci o Remi quando estive em Portugal pela primeira vez e, quando lhe disse o que fazia, ele adorou e convidou-me para fazer uma apresentação aqui no Hub. Se corresse bem, a ideia era fazer uns workshops, embora não estivesse nos planos vir para cá trabalhar. Mas percebi imediatamente que me queria envolver mais com estas pessoas e, pouco tempo depois da minha apresentação, surgiu esta vaga para happiness manager. Parece que tudo se alinhou. A entrevista correu tão bem que, passado uma semana, disseram que me queriam cá duas semanas depois”.

Marlene Zehnter
Quem vier por bem: Marlene Zehnter créditos: Diana Tinoco

O cargo, apesar de ser cada vez mais popular entre startups e empresas jovens, parece pensado exclusivamente para ela. Sempre que diz quem é e o que faz, as pessoas sorriem imediatamente – o que, por si só, é um bom começo. “O meu objectivo é fazer com que toda a gente se sinta em casa. Mostro o espaço, ajudo as pessoas a integrar-se, tento perceber o que precisam, organizo eventos para a comunidade... É uma loucura, porque falo como já estivesse cá há seis meses e, na verdade, ainda só passaram três semanas! É tudo tão intenso!”

E ela? Quem é que a faz sentir-se em casa? “Portugal, talvez. Há tanto tempo que não tenho um lar, à excepção da Alemanha, para onde voltar. Claro que viajar é bom e quero continuar a fazê-lo, mas preciso de criar raízes e sinto que Lisboa é o sítio para isso desde que cheguei cá e soube que tinha de viver aqui”. Nós, por cá, tentaremos recebê-la com um sorriso de volta.