"Get out of your head and into your heart"

KATIE EMMA  

Sidney, Austrália, 1988

No fim de tarde de um verão que teima em não chegar, encontramos a Katie à sombra de uma árvore nos jardins da Gulbenkian. Aqui ao lado, quatro ou cinco italianos pouco silenciosos fogem de um grupo de patos que percorre o jardim como se fôssemos nós quem está a mais, e talvez até sejamos. A viver em Lisboa há apenas três semanas, a australiana é tímida e fala baixinho, mas encanta. Olhos e cabelo cor de mar, escolheu a Gulbenkian como o seu refúgio em São Sebastião, onde agora vive, e é aqui que se ouve a pensar, que organiza as ideias e que escreve os seus textos de Astrologia. Mas já lá vamos.

“Bem, tudo começou quando ainda vivia em Bali. É difícil explicar, mas sentia que, de certa forma, estava ligada a Portugal e tinha de vir cá entender o porquê desta ligação”. E veio. Em Agosto do ano passado, aterrou aqui para ir ao SonicBlast, um festival de rock em Moledo, bem no norte do país, onde conheceu “gente incrível”. Depois, veio a Lisboa confirmar aquilo que o feeling lhe ia dizendo há tanto tempo: “senti que estava a regressar a casa. Há algo em Lisboa que é casa para mim.”

Katie
Katie Emma tem 30 anos créditos: Diana Tinoco

Sem saber como ou quando viria, os meses seguintes foram vividos só com o objectivo de vir. “Nem sabia como ia fazer, porque na Austrália não é fácil obter um visto para viver em Portugal. No entanto, a minha mãe é alemã e acabei por conseguir um passaporte alemão, que agora me permite viver e trabalhar na Europa”. Arranjou dois trabalhos em Melbourne, ambos em livrarias, e, durante seis meses, trabalhou seis dias por semana para juntar o máximo que conseguisse, e não pensava noutra coisa.

Apesar destes dois trabalhos que manteve para poder poupar, há um emprego constante do qual vive há oito anos: a Astrologia. “É algo que sempre tive em mim. Comecei a ler livros sobre o tema aos dez anos, comprei o meu primeiro baralho de tarot quando tinha 12, leio as cartas aos meus amigos desde que me lembro...”. Um dia, aos 22 anos e a trabalhar numa seguradora, percebeu que era tão infeliz que único caminho possível era mudar de vida, transformar o hobby em trabalho, a paixão em dia-a-dia. “Cheguei à conclusão que queria levar isso às outras pessoas, para que todos pudessem compreender melhor a Astrologia. É uma arte tão antiga, tão fascinante e tão subvalorizada...! Há muito mais para aprender além dos signos, de eu ser touro ou caranguejo. Cada planeta, cada estrela, cada camada do Universo está em nós. Quando nos dizem, na Ciência, que somos feitos do pó das estrelas, com a Astrologia aprendemos a ler esse pó e a aplicá-lo a cada um de nós. É deslumbrante. Não foi um caminho fácil, tive de lutar imenso, mas sim, posso dizer que consigo viver da Astrologia”.

Como consegue fazer este tipo de trabalho em qualquer parte do mundo, a ideia agora é criar um site para ensinar Astrologia online. “Vai chamar-se Temple of Cosmic Astrology e já tenho um grupo de 15 pessoas de todo o mundo com quem faço sessões semanais, mas o plano, para além disso, é arranjar um espaço em Lisboa onde também possa dar formação, fazer sessões em inglês com estrangeiros”. E em português? “Ainda não tenho muito jeito (risos). Mas já sei dizer uma ou outra palavra e quero começar a ter aulas em breve”.

O futuro, agora, é criar o lar numa cidade que já é casa, mas sente que vai correr tudo bem porque “vive muito de acordo com a intuição. De cada vez que a minha cabeça me diz uma coisa e o meu coração me diz outra, sigo sempre o coração. Se confiarmos mais nisso, as coisas boas começam a acontecer. E é isso que ensino sempre nas minhas aulas de Astrologia: get out of your head and into your heart”.

Katie
A astróloga vive em Lisboa créditos: Diana Tinoco