Por Isabel Lindim

Andreea Magdalina é a fundadora da shesaid.so, uma plataforma internacional criada há cinco anos, formada por mulheres ligadas à indústria da música. Esta rede estende-se a vários países e tornou-se um enorme polvo que abraça todos os continentes. Andreea é uma mulher bonita e delicada, com uma enorme capacidade de agregação, que sentiu esta necessidade de aproveitar as possibilidades que a Internet oferece para estabelecer contactos e competências em várias áreas da música. O que aconteceu foi um verdadeiro fenómeno de entusiasmo. Começou com um grupo de 20 mulheres, passado um mês, no primeiro encontro offline, cinquenta mulheres estavam presentes e um mês depois a rede tinham 120 subscrições. Hoje em dia são mais de dez mil.

Andreea nasceu na Roménia e aos 19 anos foi para Inglaterra estudar Comunicação Multimédia na Universidade de Westminster. Foi aí, em 2008, que começou a sua aventura no intenso mundo da música, maioritariamente composto por homens.

No final de 2014 foi para Los Angeles por causa de um trabalho. "O plano era ficar quatro meses, entretanto passaram cinco anos", conta Andreea à PRIMA. "Precisava de uma mudança. O estilo de vida é muito diferente, Londres às vezes pode ser um pouco tóxico, com a pressão, o stress... Em L.A. o ambiente permite estares mais descontraída, ter um equilíbrio melhor entre trabalho e vida pessoal. Ao mesmo tempo, é América, e o sistema, a infraestrutura, força-te a uma dedicação. A forma de pensar é focada em fazer dinheiro, em consumir, em comprar. Mesmo num sítio como L.A., ou Califórnia, onde há tendência para tudo ser mais descontraído, existe sempre este foco. Achei que era bom para mim, porque nunca estive focada no dinheiro, e a América é um mercado importante."

Talvez tenha sido esta aproximação à indústria da música nos E.U.A. que fez despontar a vontade de ampliar os tentáculos da shesaid.so. Andrea percebeu que era possível - e necessário -, uma plataforma formada apenas por mulheres a nível mundial (e não apenas em Inglaterra, onde começou). O que ela não estava à espera é que se tornasse tão grande e que criasse um espírito tão positivo, de entre-ajuda e de partilha de conhecimentos.

A PRIMA encontrou-se com Andreea no primeiro evento internacional da shesaid.so, depois de quatro dias intensos de conferências, workshops, muitos assuntos debatidos e sessões de música. Foi o momento em que finalmente conheceu pessoas com quem normalmente comunica por skype. A escolha de oradoras teve muita influência no sucesso deste encontro. Andreea move-se como um elemento catalizador, percebe exactamente o que deve ser transmitido, para quem e por quem. Estabelece pontes, promove a inclusão. Uma das mulheres que moderou um painel é a sexagenária Alison Wenham, com uma capacidade de comunicar invejável. Falou sobre dinheiro, salários e igualdade, falou sobre confiança e como não ter medo de negociar. É este tipo de partilha que Andreea quer perpetuar num projecto como a shesaid.so.

As mulheres mais velhas, com cargos poderosos em empresas como o Facebook, Google, youtube ou Warner pertencem a esta rede com uma abordagem diferente, não de ostentação corporativa, mas de partilha de experiências pessoais. Andreea chama à shesaid.so de comunidade, mas na verdade é um movimento. No final da jornada de quatro dias, as suas palavras eram de emoção: "Este sentido de colaboração, de apoio entre as mulheres, tão aberto e genuíno, é algo que normalmente se perde na indústria da música, porque a tendência é pensarmos que temos de ser fortes e perfeitos, e que temos de ser pessoas muito resolvidas. Mas não somos, todos temos emoções, todos temos problemas, e reunir este grupo de pessoas, que se sentiram tão conectadas, tem sido uma experiência incrível".

Talvez Andreea não se aperceba, mas o que se retira de uma comunidade como esta e da conferência Meetsss é a palavra-chave diversidade. Como juntar pessoas tão diferentes, todas com um espírito de partilha, com o objectivo de tornar a indústria criativa menos competitiva e mais saudável.

Andreea
créditos: Camille Leon

Quatro perguntas a Andreea

Que género musical ouve atualmente?

Adoro house e techno à noite e jazz e música clássica durante o dia. Com muito hip-hop, rnb e música experimental pelo meio.

Uma mulher artista que considera forte.

De momento, tenho de dizer que é a Rosalia, embora a Erykah Badu seja a minha heroína desde há muito tempo.

Um livro que recomende.

Estou a ler 21 Lições para o Século 21, de Yuval Harari. É um livro que te dá ensinamentos sobre o mundo e mostra como ele pode estar no futuro.

Uma mulher feminista que admire.

Gloria Steinem. O trabalho dela como feminista é realmente inclusivo, principalmente em relação às mulheres negras nos E.U.A. Também tenho que referir a Ruth Ginsberg, cujo trabalho jurídico tem criado mudanças reais nos direitos das  mulheres em vários níveis da sociedade.

Qual é a mensagem mais importante da shesaid.so?

Comunidade. Tudo na shesaid.so é sobre juntar mulheres, e pessoas de todos os géneros, em geral, numa frente unida de colaboração, apoiando-se umas às outras, para tornar o mundo um sítio com mais igualdade de oportunidades.

Meetsss, um encontro feliz

O primeiro encontro internacional da comunidade shesaid.so, realizado entre 3 e 6 de Outubro em Portimão, foi mais do que um conjunto de conferências sobre as mulheres no mundo da música. Foram dias de inspiração em que se ouviu mas também se sentiu uma força feminina que pretende descomplicar o caminho profissional nesta indústria criativa. A mensagem geral foi positiva e empoderou mulheres que vieram de países como França, Inglaterra, E.U.A., Austrália, Japão e Canadá, algumas sozinhas. Em cerca de 250 participantes, 5 eram homens e 2 fizeram parte do painel de oradores, entre eles uma das grandes referências do mundo da música, Ben Turner, que teve uma intervenção comovente.

Normalmente, o que assistimos em painéis de oradores seja de que assunto for, é precisamente o contrário, uma ou duas mulheres no meio de dez homens. Os assuntos do Meetsss foram tão diversos como saúde mental na indústria da música, promoção, composição e produção, paridade, assédio, racismo, inclusão, redes sociais e sustentabilidade. Na verdade, em todos estes temas a mensagem é transversal a diferentes áreas. Qualquer pessoa que não esteja ligada à música se revê nas palestras e fica interessada naquelas partilhas. A shesaid.so é uma plataforma de mulheres que trabalham na área da música, mas o Meetsss é um evento que pode atrair futuramente mulheres e homens de outras vertentes criativas. Como dizia a sul-africana Dope Saint Jude antes do espectáculo poderoso que apresentou numa das noites, "muitas pessoas já tiveram a ideia de criar uma comunidade feminina na música, mas nunca ninguém conseguiu pôr em prática". Hip-hop, soul, folk e música de dança, todas as noites tiveram música sob a curadoria de um delegado internacional. A abertura foi da responsabilidade de Mariana Duarte Silva, que levou os talentos de Surma, Fábia Maia e Studio Bros, uma dupla que mostra o que de melhor se produz na periferia de Lisboa. O mundo precisa de mais homens feministas, que exijam uma programação equilibrada nos eventos de música, e esta dupla foi um arranque perfeito para uma mensagem de inclusão e diversidade.

Para saber mais, visite https://www.shesaid.so/

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