FELLIPE COELHO DE NEGREIROS

Corumbá, Brasil, 1991

No último andar deste prédio que tem Lisboa aos pés, as portas do 5ºesquerdo e 5ºdireito raramente se fecham. Não são casas portuguesas, com certeza, já que a palete de idiomas vai do sueco ao inglês, mas a amizade entre vizinhos não precisa de campainhas. Na cozinha do 5ºdireito, Peco – como prefere ser chamado – toca guitarra de janela aberta e chapéu na cabeça, qual banda sonora de uma cidade que, por agora, adoptou como sua.

“Portugal é uma boa porta de entrada na Europa para os brasileiros. A minha ideia sempre foi conhecer vários países, mas, para já, quero ficar por cá por causa do visto de trabalho”. O próximo passo será, portanto, obter a cidadania, para a qual precisa de viver no país durante cinco anos. “A zona de conforto me incomoda muito. Fugi disso no Brasil e o meu maior medo é que passe o mesmo em Portugal também”.

Mas como é que a aventura começou? Em 2016, as palavras de ordem eram “energias renováveis”. Apesar de se ter formado em engenharia civil, Peco quis deixar a área e dedicar-se àquilo que julgava ser a nova grande aposta no mercado. “Um dia fui ao Google pesquisar pós-graduações em Portugal e foi assim que cheguei aqui. Mas a verdade é que, neste país, o mercado não era tão forte como eu pensava, as coisas ainda não mexiam. A universidade não conseguiu estágio para os 40 alunos e eu tive de me questionar, de abraçar outras oportunidades de vida”.

Um dia, numa viagem a França, conheceu um brasileiro num autocarro que lhe prometeu trabalho na construção de um hostel em Lisboa. O problema veio depois, quando percebeu o que seria. “Disse logo que eu era engenheiro! Nunca tinha metido a mão na massa! Mas o cara me disse que, em um mês, eu pegaria o jeito, e aí percebi que conseguia fazer qualquer coisa”. Peripécias atrás de peripécias levaram-no a conhecer o dono de uma empresa de produtos de limpeza para restauração e hotelaria. E é na parte logística que trabalha há nove meses. “Foi perfeito, porque o visto vencia em agosto e em junho arranjei esse emprego. E gosto, porque tenho horários e é tudo mais certinho. As dificuldades da vida de um imigrante nos fazem sempre crescer, tudo é uma descoberta”.

No entanto, confessa que ainda não encontrou o que o faz mais feliz. “Sei que não é na construção civil, onde perdi seis anos da minha vida. Dou demasiada importância aos meus hobbies, à minha música”. Na Universidade Federal de Mato Grosso, foi um dos fundadores da Turuna, uma associação académica com o objectivo de difundir música e desporto, que começou do zero e que hoje tem mais de 300 pessoas. Por isso, e mesmo do outro lado do oceano, Peco continua a dar música às pessoas que têm a sorte de o ouvir.

Fellipe Coelho de Negreiros
Quem vier por bem: Peco. créditos: Diana Tinoco

“Comprei um cajón aqui em Lisboa e, sempre que saio de casa para tocar, conheço gente de todo o mundo. Gosto muito de ir para o Adamastor (o conhecido Miradouro de Santa Catarina) e tocar com as pessoas que conheci aí – alemães, holandeses, portugueses... gente que toca na rua e fazem disso a sua vida. São experiências que só Lisboa permite e é incrível a explosão que a cidade teve. Nossa, não existe cidade na Europa com esses miradouros, essas vistas. Lisboa tem tudo o que você precisa, cara”.

E agora, a próxima aventura? Portugal, Brasil ou por esta Europa fora? “Ah, cara... Agora estou em Portugal, um dia desses posso estar na Áustria. É um país com qualidade de vida, com uma população receptiva, onde gostaria de viver. O Brasil é uma casa antiga com milhões de recordações, mas onde não pretendo voltar a morar. E isso não é dizer mal do meu país – se você escolhe sair, você não tem moral para criticar. Só tem quem vive lá e tenta melhorar as coisas. Eu sempre lutei contra a zona de conforto. Antes que ficasse preso lá, eu fui embora. Meu sonho sempre foi conhecer o mundo. Voltar significaria desistir de meus sonhos”.