Ianina Khmelik
Moscovo, Rússia, 1983

De Moscovo para Espinho em 1999 ou naquele dia, ali, em Julho de 2018, como se completássemos um círculo que desconhecíamos. Fomos ao Festival Internacional de Música de Espinho para ver Ianina tocar com Mário Laginha, num palco em frente à Câmara Municipal da mesma cidade que a acolheu há 19 anos. Como assistente de concert meister na Orquestra Sinfónica do Porto ou como concertina convidada da Orquestra Sinfónica de Espinho, entre os muitos outros projectos que integra, o seu lugar faz-se de violino no ombro e este sorriso orgulhoso de quem chegou até aqui com muito trabalho.

“Por mais incrível que pareça, foi aqui que tudo começou”, confessa-nos, como se coincidências assim não pudessem ser reais. Mas são. Ianina estuda música desde os cinco anos e aos 15 mudou-se para Espinho, de malas e bagagens e apenas um tutor russo para a receber. “Enquanto vivia em Moscovo, ainda pequena, fiz parte da Orquestra Virtuosos de Gnessin, da Escola de Música Gnessin, com quem viajava muito em tour pela Europa. Foi numa dessas tours, em Espanha, que tive contacto com portugueses pela primeira vez. Estava a descansar, de olhos fechados, quando ouvi alguém a falar comigo numa língua que me parecia russo mas da qual eu não entendia nada. Houve ali um click qualquer. Só depois é que percebi que era português”.

Créditos: Diana Tinoco

                                                                                                                   créditos: Diana Tinoco

Essa coragem, aliada à urgência política de procurar a vida fora de uma Rússia em guerra com a Chechénia, trouxe-a para Portugal. “Aos 15 anos, tudo é uma descoberta. Se queres sair e ver e tens alma para isso, por que não? Honestamente, acho que a coragem maior até foi dos meus pais, em mandarem-me para tão longe sem me poderem visitar a qualquer momento. Mas acho que tinha mesmo de ser. Estamos a falar de 1999 – explodiam casas em Moscovo, as pessoas do meu prédio faziam turnos para vigiar o condomínio permanentemente, eu própria assisti à explosão de um hotel muito perto da Praça Vermelha. Quando é assim, a segurança não tem preço, e os meus pais tiveram de confiar na minha responsabilidade”.

Continuou então a tocar violino – e piano, como segundo instrumento – na Escola Profissional de Música de Espinho, onde o seu tutor russo era também professor. Cresceu, mudou-se para o Porto, fez o curso na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo e conheceu gente, muita gente, principalmente portugueses, por essa curiosidade que sempre teve em nos ouvir e conhecer melhor. Começar a conhecer pessoas fez com que começasse a tocar “com este, com aquele, a explorar outros estilos de música” e, sem se distanciar da vertente clássica, começou a explorar géneros como o pop rock, a música electrónica e muitos outros. Trabalhou com Pedro Abrunhosa, The Gift, Custódio Castelo, gravou três discos com os GNR, criou projectos seus e participou nos dos outros, acreditando sempre que os laços que mantém com quem trabalha são o mais importante de tudo o que levamos disto, dentro e fora do palco.

Ainda assim, a sua segunda Casa é a da Música, na Orquestra Sinfónica do Porto para a qual realizou provas há dez anos. “Se alguém morre ou sai, abre uma vaga e eles anunciam as provas. Dizem-te que peças vais tocar nas eliminatórias, que são três, e tocas tudo no mesmo dia. Costumamos ser entre 60 e 100 concorrentes, num dia muito intenso que começa às nove da manhã e que pode acabar depois das onze da noite. Ninguém vê a tua cara quando estás a tocar, é uma espécie de prova cega para evitar influências e amizades e essas coisas. Ali, és avaliada pelo som, uma espécie de lotaria onde entra muito, mesmo muito trabalho, mas que muitas vezes também pode ser pura sorte pela forma como o momento te corre”. Nesse mesmo dia, soube que a vaga era sua, e que passaria a integrar o naipe dos primeiros violinos.

Créditos: Diana Tinoco
Momentos antes do concerto, Ianina muda de roupa no salão nobre da Câmara Municipal de Espinho e prepara-se para subir ao palco. créditos: Diana Tinoco

Ser escolhida foi – e é – um privilégio pela precariedade que reina no mundo artístico. “Fazer parte da orquestra da Casa da Música não é só incrível pela programação ou pelos maestros com quem temos o prazer de trabalhar. É-o também pelas condições. Ter um contrato de trabalho, hoje em dia, é uma raridade”. Agora, é assistente provisória de concert meister até ao final da próxima temporada, responsabilidade da qual gosta pelo desafio que representa, mas que admite ser bastante stressante. Paralelamente, lançou-se como IAN, projecto pessoal de música electrónica que arrancou em Março e que levou aos coliseus como primeira parte dos concertos dos The Gift. “É um projecto que me é muito querido, que passa muito pela minha vida pessoal e que também já tive oportunidade de levar a Moscovo e a São Petersburgo”.

Se não fosse como IAN, iria sempre à Rússia como Ianina Khmelik. “Vou lá todos os anos ver a minha família e os meus amigos. Continuo a ter muito orgulho em ser russa e adoro o meu país, embora também tenha nacionalidade portuguesa e me considere muito de cá. Metade da minha vida, vivi-a aqui. Tenho a minha casinha perto da Casa da Música, adoro o meu bairro, abrem cada vez mais galerias, há cada vez mais festas e o Porto está cada vez mais cosmopolita. É uma diferença abismal desde que cheguei cá, em 1999, com uma certa mania das grandezas por ter vindo de uma cidade enorme como Moscovo”. O que mais distingue Portugal, diz, somos nós. O acolhimento das pessoas, uma certa alegria comedida e consciente que nos caracteriza, a vontade gigante de ajudar. Enquanto houver Portugal, com um pé cá e outro lá, há Ianina. E que comece o espectáculo.

Créditos: Diana Tinoco
Com Mário Laginha e a Orquestra Classica de Espinho, a encerrar a edição de 2018 do Festival de Música de Espinho. créditos: Diana Tinoco