Por Matt Haig

O livro O Mundo à Beira de um Ataque de Nervos, de Matt Haig (Porto Editora), é um manual para sobreviver aos dias de hoje. Aqui fica um dos capítulos que interessam a todos nós, telemóvodependentes

1.

Não sinta que tem de estar sempre disponível. No tempo das cartas e dos telefones fixos (que não foi assim há tantos anos), tentar entrar em contacto com alguém era uma empreitada lenta e sem garantia de sucesso. Na era do WhatsApp e do Messenger, este esforço tornou-se fácil, gratuito e instantâneo. Mas o outro lado da moeda desta enorme facilidade é pressuporem que estejamos sempre contactáveis. Espera--se que a chamada seja atendida. Que se responda às mensagens de texto e aos emails. Que atualizemos as nossas redes sociais. Mas podemos optar por não sentir essa obrigatoriedade. Por vezes, podemos deixar os outros à espera. Podemos até correr o risco de abandonar as nossas redes sociais por algum tempo, pois, se os nossos amigos forem mesmo nossos amigos, vão compreender a nossa necessidade de espairecer a cabeça. E, se não forem nossos amigos, não existe sequer razão para nos preocuparmos com eles.

2.

Desligue as notificações. Este ponto é crucial. É isto que lhe permitirá manter a sanidade (pelo menos, parcialmente…). Desligue todas as notificações. Todas. Não precisa de nenhuma. Recupere o controlo das coisas.

3.

Passe alturas do dia sem ter o telemóvel ao lado. OK, reconheço que não sou lá muito bom neste ponto. Mas estou a melhorar. Ninguém precisa sempre do telemóvel. Não precisamos dele junto à cama. Não precisamos dele à hora das refeições, em casa. Não precisamos dele quando saímos para correr. Agora, faço o seguinte: saio de casa para dar um passeio sem levar o telemóvel. Eu sei que parece um pouco ridículo dizer isto como se fosse um feito extraordinário, mas, para mim, foi. É como fazer exercício físico. Requer esforço.

4.

Não carregue no botão da página principal a cada dois minutos. Exercite a restrição do impulso de ver o que há de novo.

5.

Não associe os seus níveis de ansiedade à percentagem de bateria que ainda tem no telemóvel.

6.

Não chame nomes feios ao telemóvel. Não lhe faça súplicas. Não negoceie com ele. Não o atire pelos ares. O telemóvel é absolutamente indiferente relativamente às suas emoções. Se ficar sem rede ou sem bateria, não é por vingança; é, simplesmente, por se tratar de um objeto inanimado. Em resumo: não passa de um telemóvel.

7.

Não ponha o telemóvel na mesa de cabeceira. Não estou a criticar, entenda-se. A maior parte das pessoas dorme com os telemóveis ao lado porque eles substituíram os relógios despertadores. Eu tenho o telemóvel perto da cama quase todas as noites. Os meus pais dormem com os telemóveis junto à cama. Toda a gente que conheço tem os telemóveis junto à cama. Talvez, um dia, as nossas camas sejam os nossos telemóveis. Mas parece-me que durmo melhor quando não o tenho próximo de mim, quando o deixo noutra parte da casa; ou até noutra parte do quarto, mais distante da cama. Eu sei que isto pode soar pouco realista, mas é bom termos objetivos por conquistar. Uma espécie de ideal do qual tentamos aproximar-nos. Podemos até chegar a fantasiar com o dia em que seremos suficientemente fortes para nunca mais precisarmos de ter o telemóvel sempre ao nosso lado. Como nos velhos tempos. Como no século XIX. Como no século XX. Como em 2006.

8.

Pratique o minimalismo com as aplicações. Uma sobrecarga de aplicações e opções serve para aumentar o leque de escolha, mas acaba também por aumentar o stresse quando usamos o telemóvel. Temos à nossa disposição uma gama quase infinita de coisas que podemos adicionar aos nossos telemóveis. Mas um leque de escolha mais abrangente leva à tomada de mais decisões e, logo, a maiores níveis de stresse. Nós nascemos sem aplicações no nosso telemóvel. Já agora, sabe que mais? Na verdade, até nascemos sem telemóvel! E a vida não deixava de ser bela por causa disso.

9.

Não tente ser multitarefas. Temos telemóveis que conseguem fazer tudo, desde ler mapas até afinar a nossa guitarra, e é tentador pensar que também conseguimos fazer tantas coisas tão diferentes, e todas ao mesmo tempo. Por exemplo, enquanto estou a escrever este ponto, tive de me impedir de ir ver a caixa de entrada do correio eletrónico, de verificar se tinha novas mensagens de texto e de ir espreitar as minhas redes sociais. O que requereu um enorme e consciente esforço da minha parte. Segundo o neurocientista Daniel Levitin, não somos propriamente feitos para o tipo de multitarefas que a era da internet parece solicitar. “Apesar de pensarmos que conseguimos dar conta de muita coisa, na verdade, está provado que as multitarefas nos tornam menos eficientes”, escreve Levitin em The Organized Mind: Thinking Straight in the Age of Information Overload. Quando realizamos várias tarefas em simultâneo, isso cria um círculo vicioso de dopamina, que recompensa o cérebro por perder capacidade de concentração. As multitarefas também podem aumentar o stresse e baixar o quociente de inteligência. “Em vez de colher as grandes recompensas que advêm de um maior e mais sustentado esforço de concentração, acabamos por colher prémios sem valor, uns rebuçadinhos, por completarmos um milhar de pequeninas tarefas”, conclui o neurocientista.

10.

Aceite a incerteza. A tentação de verificar o telemóvel deve-se à incerteza. É isso que torna o “jogo” tão viciante. Queremos que alguém responda à mensagem que enviámos, mas não sabemos se já o fizeram. Então, temos de verificar. Queremos muito encontrar o mistério e a promessa por trás daqueles três pontinhos a piscar, expectantes relativamente ao que a pessoa está a escrever. Queremos muito saber qual é a reação à nossa atualização de estado ou nova foto de perfil. Mas precisamos mesmo de o saber ao segundo? Porque é que isso não pode esperar para depois de descansarmos, de termos a nossa reunião, de fazermos a nossa caminhada, de vermos a nossa série televisiva, de tomarmos a refeição ou simplesmente de sonharmos um pouco acordados? Será que as pessoas realmente precisam de estar a olhar para os telemóveis durante as reuniões ou os funerais? Talvez não precisássemos de o fazer, caso compreendêssemos que esta atenção contínua nunca será capaz de nos deixar inteiramente satisfeitos. Tudo porque a incerteza é algo que nunca acaba. Não existe a “verificação definitiva” do telemóvel. Pense em quantas vezes consultou o telemóvel durante o dia de ontem. Precisava mesmo de o ter feito com tanta frequência? Eu certamente não. Diminuí bastante o número de vezes que consulto o telemóvel, mas ainda tenho um longo caminho a percorrer. Quantas vezes por dia toca no seu telemóvel? Quantas vezes olha para ele? Poderá sentir dificuldades em contabilizar. A resposta, possivelmente, andará na ordem das centenas. Agora imagina, digo para mim próprio, que só olhavas para o teu telemóvel umas, vá, cinco vezes por dia. Que catástrofe poderia acontecer?

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