O anonimato não é negociável. Assim atua um capanga. Focado na sua missão, impõe termos e condições e os outros têm, simplesmente, que os acatar. “O anonimato tem muitas vantagens, posso escrever mais livremente e é também uma marca contracorrente, isto é, vivemos na época das redes sociais, da promoção constante da imagem e o João Capanga quer ser iconoclasta”, define o seu criador, com quem partilha o nome próprio. Durante a entrevista, feita ao telefone, veste e despe a personagem deste “carrasco literário”, um portuense corriqueiro, um pouco cáustico, sem meias palavras.

João sempre esteve ligado às artes, nomeadamente à fotografia. “Adoro e tenho trabalhos publicados, mas consome muito dinheiro, tempo e energia”, confessa. Ficava ainda com a sensação de deixar sempre algo por dizer. Em 2012, concebe o João Capanga, primeiro com presença virtual no Instagram, através de frases, poéticas ou provocadoras, escritas num caderninho preto, colocado contra um pano de fundo relacionado, a maioria das vezes, com a mensagem. “Há dois elementos humanos em destaque que funcionam muito bem: a mão, em grande plano, e a caligrafia, permitindo que qualquer um se relacione com a fotografia”, descreve o autor. Ali expõe o seu lado lunar, fala de paixões e irritações inconfessáveis, partilha ideias politicamente incorretas – como “adoro a densidade dos silêncios nos casais que jantam fora”, “há sempre um pai que se exalta e uma mãe que deprime” ou “eles vão odiar segundas, até ficarem desempregados”. Frases proibitivas para muitos, mas com as quais facilmente se identificam (tem cerca de 7.500 seguidores). “Gosto de receber um eco, embora não procure essa identificação. Procuro a catarse. Qualquer miúda com fotos provocantes tem mais seguidores.”

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Diz-se ainda “farto das frases dos poetas mortos”, da idolatria dos clássicos, e de ver a poesia tratada como uma santa de altar intocável. João quer tirar-lhe o pó, levantar-lhe a saia e arrancá-la dos livros. No SoundCloud, deposita as leituras dos seus poemas propriamente ditos, declamados por figuras bem conhecidas, como João Reis, Sofia Aparício, Ivo Canelas, Mafalda Arnauth ou Fernando Alvim. “Sou muito persistente, contactei-os através das redes sociais e, surpreendentemente, as pessoas aceitaram”, conta. Por concretizar está o pedido feito a Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República. “Ser poeta é ser mais alto”, brinca Capanga, em relação à ousadia.

A imaginação não para quando se trata de dar a conhecer o João Capanga. Imprimiu autocolantes com as suas frases e espalhou-as pelas ruas do Porto, colocou os seus poemas num placard à entrada de uma estação de metro e está, neste momento, a realizar um documentário, Escreve onde quiseres…, com a ajuda do videógrafo Ivo Gomes, onde revela como tem levado a poesia fora de portas. Afinal, pode ser muito simples: basta um caderninho, uma caneta e um telemóvel.

Texto: Joana Loureiro