Por Sílvia Souto Cunha, com fotografia de Diana Tinoco

Os rótulos capturaram-no assim que apareceu: o mais jovem vencedor do Prémio Leya, o trineto de Eça de Queirós, o caso literário corajoso que escreveu sobre o irmão autista… Afonso Reis Cabral sacudiu esta poeira toda e fez-se à estrada literária. Editou agora um novo romance, baseado no caso Gisberta, e está a criar as suas próprias regras em trânsito.

A juventude é uma camisa de forças, um rótulo cheio de equívocos?

É difícil responder porque não estou na pele das pessoas que veem esse rótulo, não faço ideia de como este funciona. Mas quando saiu O Meu Irmão e recebi o Prémio Leya, fiquei muito surpreendido com o facto de realçarem os meus 24 anos. Porque eu escrevia desde os 9 anos, nada daquilo era novidade para mim. Até achava que já estava atrasado no projeto de vida que construíra.

Mas com que idade é que criou esse projeto de vida?

“Projeto de vida” é uma imagem rebuscada: era o tentar cumprir a minha vocação. Aos 9, eu já percebia que gostava da escrita. Lancei Condensação, o meu primeiro livro com poemas escritos entre os 9 e os 15 anos, em 2005. Portanto, passaram-se quase dez anos até editar O Meu Irmão [2014]. Na minha perspetiva, já tinha decorrido demasiado tempo: para quem tem 24 anos de vida, nove anos é muito tempo... Agora, olho para trás e também acho isso ridículo. Mas continuo a não sentir que a idade jogue [um papel], não percebo qual é o fascínio. E acho que não tem sido determinante na leitura de Pão de Açúcar.

Com 9 anos, não queria era ser astronauta, pirata, piloto de fórmula 1...?

Não, não. Já conseguia ter essas experiências ao ler, sentia que a leitura e a escrita eram o bastante. Mas não tinha o projeto de “aos tantos, vou publicar um livro, e X tempo depois, outro”. Sabia que queria escrever. E a escrita também é viver e, às vezes, é divertirmo-nos a sério.
Deve regressar-se aos livros em que se foi feliz?

Com os livros, a felicidade renova-se sempre, não há o perigo de não voltar a ser feliz. Pelo menos, com os clássicos. Se não os lermos com uma perspetiva moralista [risos].

Subscreve a ideia de Borges: a leitura é uma forma de felicidade?

A leitura, sim. Já a escrita, não.

Alinha mais por José Cardoso Pires, que confessou o sacrifício que era escrever?

Há momentos de pura felicidade na escrita, mas são raros. Como forma de felicidade, é muito ingrata.

Como é o seu processo de escrita?

Em Pão de Açúcar foi uma escrita quotidiana, entrando às 9h da manhã no escritório e saindo ao final do dia, e seguindo um plano rigoroso. Tinha o livro todo delineado no computador, os capítulos pensados até ao capítulo 56, as notas, os agradecimentos, as notícias sobre o caso, tudo. Depois, na concretização, as coisas alteraram-se. Escrevia metade do dia, e, na outra metade, fazia revisão.

É um escriba rápido ou lento?

Quando corre bem, um capítulo em 20 minutos é possível. Só que depois é preciso retrabalhar tanto, tanto, tanto, que são dias e dias. E meses. Às vezes, eu conseguia estar no capítulo dez e, se não estivesse a correr bem, passava para o 40 ou o 50. Tudo tinha uma linha condutora, no fim, resultava.

O autor domina a criação, e não o inverso?

Tinha a ilusão de que sim, e isso permitia-me construir coisas novas. A rotina de trabalho é muito importante para mim, porque dá espaço à criatividade, coloca-me dentro do livro. A inspiração? É algo quase mítico. Passados uns dias, quando se lê o que se escreveu quando se estava inspirado, é um processo doloroso: nada é tão interessante como parecia.

Tem truques desbloqueadores ou talismãs de escrita?

Eu sou bastante estúpido nalgumas coisas. Acho que se der com a cabeça numa parede, é a parede que vai ceder e não a minha cabeça. O que acontecia na escrita era eu insistir tantas vezes, que se tornava doloroso e sem sentido. O truque era sair do escritório e dar um passeio num parque perto, ouvir música, estar ali meia hora. Esse é um truque importante: um bom passeio é importante para a escrita.

Interessa-lhe mais a ação que faz avançar o romance ou a linguagem que o ornamenta?
Parece uma questão binária, mas é uma falsa questão. Não se tem de escolher. Os momentos em que consigo escrever uma cena de rajada são os momentos de êxtase, ou melhor, de satisfação, para não estar aqui a “armar”. Mas os momentos reais em que se sabe que aquilo está bem chegam depois de trabalhar a linguagem. E, cada vez mais, acho que a maior simplicidade é a maior complexidade na escrita. E que a maior transparência é a maior profundidade. Porque a escrita é comunicação. A simplicidade é, espero, um veículo para outras coisas.

Afonso
O jovem escritor português fotografado nos jardins da Gulbenkian, em Lisboa créditos: Diana Tinoco

Nos dois romances que publicou, também há uma preocupação em não se “armar”, em não ser literato, em evitar os artifícios.

Eu acho que os artifícios escondem inseguranças, incapacidades. A simplicidade, a construção pura, é mais complexa do que um “vejam como eu fiz aqui bonito”, “olhem este voo”.

Um parágrafo bonito pode ser uma batota?

Pode. E não é isso que eu quero. Eu quero contar histórias, e para isso é preciso ter uma linguagem muito bem trabalhada para que a história sobressaia.

A amostra estatística é pequena, mas abordou temas fortes nos seus dois romances: autismo, preconceito, violência, um crime real. As histórias que ambiciona contar são as que provocam sismos nos leitores?

Para mim, são as histórias que os desassossegam. Mas também gosto de narradores não fiáveis: tanto o narrador de O Meu Irmão como o de Pão de Açúcar estão tão envolvidos, que não podemos confiar neles. Eles contam a história da maneira que lhes interessa. 
E gosto também dos ambientes agrestes onde, no entanto, aparece a humanidade no estado mais primário. Se isso provocar algum confronto no leitor, fico satisfeito.

E se o leitor não aguentar e abandonar o livro a meio?

Paciência. É um risco, mas, caramba, eu não ando com os leitores ao colo, não é esse o meu papel. A literatura é comunicação, sim, mas não ao ponto de querer escrever algo que agrade. A verdadeira comunicação não é agradar.

Começa um livro a pensar: “Isto vai exercitar-me músculos literários, tirar-me da zona de conforto”?

Sim. Particularmente em O Meu Irmão, e não porque era uma realidade que eu conhecia bem, embora a tenha levado a extremos que me eram alheios. Mas no Pão de Açúcar também. Um livro que parte de um caso real causa muitas vezes essa estranheza no leitor: o que é real? Temos de assumir que é tudo ficção, que são personagens e não pessoas, e acabou. Mas este era um ambiente que eu não conhecia de todo, era um desafio grande. Também pensei na pressão de querer fazer um segundo romance bem feito: mais valia ser um tema que não conheço, e tentar dominá-lo.

Por vezes, teve vontade de fugir perante um tema dramático como Gisberta?

O mais complicado foi a primeira abordagem: como entrar no livro? Mas a partir do momento em que descobri a voz do narrador, Rafa, tudo se tornou mais fácil, porque tudo está legitimado pela voz dele. Agora, houve momentos em que tive de parar, a partir das cenas mais violentas. Eu sou particularmente ansioso, mas o livro pôs-me ainda mais ansioso. E comecei a fazer boxe no ano passado, para descomprimir e libertar tensões. Resulta durante umas horas, um dia ou dois, e ajudou à escrita.

Já é um boxeur razoável? O que é que lhe agrada na modalidade?

Já começo a ter alguma técnica. Mas faço duas vezes por semana, portanto não dá para ser bom naquilo. Mas o que me agrada no boxe é o confronto. Em cada aula, há a técnica, as sequências, a condição física, mas, no fim, temos combate. E agrada-me estar no ringue, o confronto com regras muito claras, o embate civilizado.

O caso Gisberta teve ampla cobertura noticiosa. O que é que um romance acrescenta aqui?

A minha lógica enquanto escritor não é a da necessidade. Até porque o livro não é um manifesto, é literatura. E a literatura, quando não é meramente um relato ou um pastiche, traz sempre algo novo. Eu parti do caso real para encontrar uma ficção, e esta traz novas personagens, motivações ficcionais – que não faço ideia se são reais ou não –, a condição humana. E isto não pode ser posto no espartilho da moral, ou do ativismo, ou por aí fora. Porque se vamos buscar só isso, não sobra a literatura.

Falou na pressão do segundo romance...

Quando se soube do Prémio Leya atribuído a O Meu Irmão, a primeira coisa que me perguntaram nesse dia foi: “Então e o próximo?” Na altura, achava que nada daquilo me influenciava. Tinha a minha vida normal: trabalho, amigos, família. Mas a partir do momento em que decidi que tinha de escrever outro romance, começou a pesar um bocadinho, por causa do leitor.

Afinal, o leitor existe, não é entidade abstrata?

Existe, mas é um bicho estranho, com muitas cabeças. Para combater isso, tive de tomar uma decisão mais radical: sair do trabalho onde estava, dar aquele “salto do avião”, “agora não posso voltar atrás”, e dedicar-me exclusivamente à escrita. E assim foram sete meses a escrever várias horas por dia.

Os leitores têm muitas ideias erradas sobre o que é a literatura?

Sobre a literatura, mas também sobre o que é o autor. Talvez haja ainda aquela ideia da torre de marfim, do inspirado, do visionário…

E a ideia desta nova condescendência: “Ah, os leitores já não são capazes de ler 600 páginas porque estão habituados a sms”?

Eu acho que o verdadeiro leitor procura na literatura o que não tem no Facebook, no quotidiano da notícia rápida: vai em busca do que é profundo, do outro, independentemente de se é longo ou não.

Li algures que tem vários romances na gaveta...

Tomara eu! Não. Depois de O Meu Irmão, comecei a escrever um romance inspirado numa viagem de camião TIR que fiz quando tinha 13 anos, à boleia com um camionista, até à Alemanha.

Os seus pais deixaram-no ir?

Com muito esforço [risos]. Em 2015, fiz a mesma viagem para me documentar. E comecei a escrever o livro, mas não estava a correr bem. Foi nessa altura que descobri a reportagem sobre Gisberta, que salvou o segundo romance. Agora estou a retomar essa ideia inicial.

Um grande prémio de revelação é uma maçã envenenada?

Bem, tem as suas desvantagens. Quando estava a escrever O Meu Irmão, o prémio Leya era algo quase abstrato… Candidatei-me a ele porque queria forçar-me a ter um prazo e a acabar o livro, e pensava que podia chegar aos finalistas. Agora, parece que o prémio exige mais do romance do que este é, e isso baralha-me: é como se algo de exterior o definisse e não o livro por si próprio. Hoje em dia, sou muito ingrato para com O Meu Irmão: irrita-me, às vezes, quando leitores me falam sobre ele ou vejo um texto sobre o livro, não tenho empatia. Por oposição, em Pão de Açúcar tudo me interessa. Parece que um livro invalida o outro...

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