Por José Pedro Ribeiro 

São do Restelo, mas bem podiam bem ser de Cascais, Campo de Ourique ou da Expo. As “pitas” e os “betos” de Lisboa constituem desde há décadas uma espécie urbana exclusiva, que para o comum dos mortais permanece ou um modelo de fidalguia um tanto ou quanto raro e inacessível ou um conjunto risível de gente.

Foi a pensar nisto, e nos maneirismos desta espécie de casta, que nasceu a página de Instagram @madeinrestelo. A Made in Restelo apostou na cultura dos memes para dar real destaque ao que de melhor existe entre os brandos costumes desta classe. O boneco é irredutível: eles vestem calças beges e camisa de marcas caras, elas usam longchamps ou Bimba e Lola. Quase sempre têm cinco ou mais nomes e, no caso dos rapazes, o segundo é invariavelmente Maria. Mas este é apenas um pequeno apontamento num universo muito mais complexo de técnicas e modos de trato, eloquência ou dicção. É verdade, as “pitas”, mais do que os “betos”, versam em “tsipos” e para elas tudo é absolutamente “ridsículo”. “É verídico”, dizem. Já eles são mais modestos no uso que fazem da língua: “ó mano” é o que mais se ouve, embora na “linguagem moderna” os ditos “chungas” reclamem a origem desta expressão.

Mas se ainda existem dúvidas, elas são rapidamente deitadas por terra graças ao conteúdo inequívoco dos memes arrumados nas categorias “beto que é beto” e “pita que é pita”. Exemplos não faltam [veja alguns memes na fotogaleria abaixo]. “Beto que é beto: tem um microcar logo aos 16”. Ou, “Beto que é beto: quando vai à praia já nem usa havaianas, só Paez”. Também as “pitas” têm um lugar cativo neste desfile de Pilares, Constanças ou Beneditas. Mas, para lá nome, há outros sinais visíveis à vista desarmada que sugerem a presença desta “casta” – os memes falam por si. “Pita que é pita: agora cria uma conta de Instagram só para a festa de anos”. Ou, “Pita que é pita: não toca na bebida do Starbucks sem tirar uma fotografia primeiro”.

À malha burlesca da @madeinrestelo não lhe escapa absolutamente nada, nem mesmo os starterpacks com dezenas de combinações muito sugestivas para as mais diversas situações ou circunstâncias do típico estilo de vida mundanal da fidalguia. Na categoria de “pseudo sk8r starterpack” são nomeados os betos que usam calças largas beges, pretas ou tropa, meias de mais de 30 euros e cujo skate não mostra sinais de uso. Na categoria “Pita quando vai viajar – starterpack” destacam-se as “pitas” que publicam pelo menos quatro fotos dos sítios que visitam, aquelas que tiram sempre fotografias ao passaporte e colocam a bandeira do país de destino, e as outras que, quando regressam, contam todos os detalhes das suas viagens. Nem mesmo as mães dos “betos” são esquecidas: “tentam parecer mais jovens a todo o custo o que implica que ocasionalmente usem algumas expressões desapropriadas, tratam toda a gente por você e adoram quando os amigos dos filhos a tratam por “tia”. Carregam uma catrefada de apelidos – nunca menos do que três – e tratam os pais por “você”, claro está.

Betos e pitas servem de inspiração para inúmeras composições divertidas. Atualmente, a página que tem pouco mais de um ano reúne já quase 22 mil seguidores e a promessa fica feita: “se és uma pita ou um clássico beto, aqui podes ver representado em memes o teu lifestyle”. Pelo sucesso que a página tem nalguns colégios de Lisboa e da Linha de Cascais, os betos sabem mesmo rir de si próprios, o que só abona a seu favor…

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