Cada vez mais vale tudo na moda. A prova disso são algumas tendências que começaram a surgir nos últimos meses e que prometem ficar por algum tempo. A ugly fashion, como é conhecida, é mesmo o que o nome indica: moda feia, mas moda. A ideia é apostar no conforto que as mulheres procuram diariamente e é por isso que este parece ser um caminho que segue a direito, mesmo que por linhas tortas.

Com a correria quotidiana, mas também pela vontade crescente de as mulheres se sentirem práticas, de estarem fashion mas, acima de tudo, confortáveis, assiste-se, por exemplo, a um contínuo crescimento na procura das sandálias Birkenstock, uma das marcas que melhor exemplifica esta vontade de vestir – e calçar – o feio e que contribuiu para a ascensão do anti-fashion. Apesar de, inicialmente, serem conhecidas pelas suas palmilhas anatómicas deselegantes, rapidamente se tornaram um calçado usável e desejável, pelo seu conforto e praticidade. Recentemente, foi nomeada a marca mais Vegan-Friendly de 2017, aumentando ainda mais a sua notoriedade. Este ano, apostou nos metalizados para a coleção de verão e misturou vários padrões e texturas, com relevos geométricos.

E os chinelos que antes se usavam apenas nas piscinas ou em casa? Esses também passaram a fazer parte da moda do dia-a-dia, apesar de ser um calçado polémico e controverso. Não há consenso relativamente à sua utilização, mas cada vez mais as marcas apostam na reinvenção dos clássicos flip-flops e há opções para todos os gostos, com pelo, de plataforma, ou até com as duas características associadas. Os Fuzzy flip-flops, criados pela designer de moda Natasha Zinko e à venda na Farfetch por 728 euros, são dos exemplos mais extravagantes deste tipo de calçado - são chinelos de pelo cor de rosa, com plataforma de 5 cm. Também a marca Ugg criou recentemente uns chinelos que são, a mesmo tempo, sandálias e pantufas. Chama-se Fluff Yeah e é um modelo em pele de carneiro, com várias cores disponíveis.

O anti-fashion continua a ganhar voz também com marcas como a Balenciaga, com os polémicos Sneakers Triple S, ténis grandes e robustos – conhecidos por “dad sneakers” (ou os ténis dos pais), por terem estado na moda nos anos 80 – e que a Zara já reproduziu, a um preço bsatante mais baixo. Nesta onda do dad style, as calças largas continuam a ser uma peça imprescindível, mas surgem novas tendências como as camisas havaianas (conhecidas por “Aloha shirts”) que são uma aposta forte de várias marcas internacionais este ano, como a River Island e a Mango.

Lembra-se das famosas Crocs? Até há pouco tempo eram confortáveis, inquebráveis e unissexo. Eram tudo isso, menos bonitas. Contudo, o mundo da moda agitou-se depois de a Balenciaga ter apresentado, no seu desfile Primavera/Verão 2018, um modelo inspirado nas crocs, mas com uma sola de 13cm. Esta nova versão, com pins alusivos à Balenciaga - bandeiras, logotipos de marcas e abacates, por exemplo - e várias cores à escolha, custa 650 euros, mas a Crocs oferece-lhe agora outra solução. A marca lançou, recentemente, um modelo com 10 cm de altura, que dá um toque mais feminino ao original. Apesar de ter apenas três cores à venda, os preços são bastante mais acessíveis (as mais baratas custam 80 euros e as mais caras 200).

Parece uma tarefa hercúlea, a de combinar várias destas peças sem se parecer esquisito, mas a verdade é que marcas e designers continuam a criar e a desenvolver este tipo de moda – ou antimoda – e as pessoas compram-na porque é confortável, familiar e porque, depois de algum tempo, como em todas as tendências, os olhos se habituam a tudo - mesmo ao estranho e ao feio. Os profissionais de moda estão a oferecer às pessoas aquilo que elas querem vestir: quem dita a moda agora é o consumidor, que “pede” este estilo de vida.

Também pela crescente luta pelo empoderamento feminino, pelo facto de as mulheres se sentirem mais autónomas e quererem tomar as suas próprias decisões, esta nova forma de estar intensificou-se, muito associada ao normcore, uma tendência que segue o conforto e o lado prático, mais do que a moda. É uma espécie de revolta contra o luxo, contra o suposto e contra o perfeito.

Hoje o giro é não ser giro. O que é velho pode tornar-se novo outra vez e o que antes era ridicularizado passou a fazer parte da moda do dia-a-dia. E apesar de ser um mundo em constante mutação e que vai, algum dia, voltar a flutuar, estas tendências associadas à “ugly fashion” parecem não morrer tão cedo.